O que realmente muda com a pausa na emissão de vistos dos EUA?

O Brasil passou a integrar a lista de 75 países mencionados pelo governo dos Estados Unidos após a decisão de pausar temporariamente a emissão de vistos de imigração

O Brasil passou a integrar a lista de 75 países mencionados pelo governo dos Estados Unidos após a decisão de pausar temporariamente a emissão de vistos de imigração, aqueles que resultam no green card. A medida, comunicada oficialmente pelo Departamento de Estado, órgão responsável por embaixadas, consulados e pela emissão de vistos, ganhou grande repercussão e gerou apreensão imediata entre brasileiros que já estão em processo ou planejavam iniciar um pedido.

Como costuma ocorrer em temas imigratórios, porém, o impacto das manchetes foi maior do que o efeito prático da decisão.

É fundamental esclarecer que a pausa não significa cancelamento de vistos, tampouco o encerramento de processos em andamento. Trata-se de uma interrupção administrativa pontual que ocorre após a entrevista consular, fase em que o pedido já foi analisado pela imigração americana e avaliado pelo oficial consular. As entrevistas seguem acontecendo normalmente. O que muda é o tempo adicional dedicado à análise final antes da emissão do visto.

O objetivo central dessa pausa é permitir uma avaliação mais aprofundada da admissibilidade do solicitante ao visto de imigrante. Entre as principais preocupações do governo americano está o risco de que o aplicante venha a se tornar um public charge, ou seja, alguém que possa depender de benefícios públicos no futuro, ou que já tenha feito uso indevido desses benefícios no passado.

Esse tipo de medida não é inédito. Pausas semelhantes já ocorreram em diferentes categorias ao longo dos anos, sempre com foco em revisar volumes elevados de solicitações, reforçar critérios de elegibilidade e identificar inconsistências ou tentativas de fraude. O que muda hoje é a velocidade com que a informação se espalha, muitas vezes de forma alarmista, ampliando a sensação de insegurança.

Na prática, quem já iniciou um processo não perde o que foi feito até aqui. O principal impacto é o possível alongamento do prazo de resposta após a entrevista, o que torna ainda mais importante agir com planejamento, documentação consistente e orientação adequada. Decisões tomadas com base apenas em manchetes podem gerar erros difíceis de reverter.

Outro aspecto que ganha ainda mais peso em momentos de revisão criteriosa é o comportamento do solicitante fora dos formulários oficiais, especialmente nas redes sociais. O monitoramento de perfis públicos por parte da imigração americana é uma prática antiga e amplamente conhecida. Hoje, com o apoio de tecnologia e inteligência artificial, essa análise se tornou ainda mais minuciosa.

Postagens que indiquem intenção de trabalhar com visto inadequado, dificuldades financeiras incompatíveis com a documentação apresentada, busca por emprego antes da autorização legal ou incoerência entre o discurso público e o processo formal podem comprometer seriamente um pedido. Muitas negativas ocorrem sem explicações detalhadas justamente porque esses fatores fazem parte de uma análise ampla de admissibilidade.

Vale reforçar um ponto básico, mas frequentemente negligenciado: vistos de turismo e de estudante não autorizam trabalho. O descumprimento dessas regras pode não apenas resultar na negativa do pedido atual, mas também impactar permanentemente futuras tentativas de entrada ou imigração para os Estados Unidos.

A pausa atual, portanto, não representa uma ruptura na política imigratória americana, mas sinaliza uma atuação mais cirúrgica, criteriosa e restritiva. O sistema segue funcionando, porém com maior rigor na avaliação de riscos e elegibilidade.

Em um ambiente de informação acelerada, o maior perigo não está na medida em si, mas na interpretação precipitada dela. Mais do que pânico, o momento exige leitura cuidadosa, estratégia e responsabilidade, elementos que continuam sendo decisivos em qualquer processo imigratório.

*Dra. Ingrid Domingues-McConville, advogada de imigração nos EUA, com 30 anos de experiência e que acompanha de perto as mudanças nas políticas migratórias e seus efeitos sobre estrangeiros.

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